Biocombustível: Vantagem ou desvantagem?
Da BBC.
A Comissão Européia (CE) apresentará nesta quinta-feira aos líderes da União Européia (UE) dois documentos que sugerem que biocombustíveis como o etanol são armas importantes no combate à alta dos preços dos combustíveis e dos alimentos, desde que sejam produzidos de forma sustentável.
Os documentos fazem parte das propostas elaboradas pela CE para serem submetidas à cúpula de dois dias da UE que começa nesta quinta-feira em Bruxelas e que busca, entre outras coisas, adotar medidas para atenuar as conseqüências dos aumentos nos preços.
Entre as medidas sugeridas para enfrentar o aumento do preço do petróleo, o Executivo pede que os países membros "confirmem sua determinação de adotar, até o final de 2008, medidas legais para cumprir as metas européias para energias renováveis e biocombustíveis".
O texto, ao qual a BBC Brasil teve acesso, afirma que o objetivo europeu de ter 10% de participação de combustíveis biológicos no setor de transportes até 2020 é "essencial para melhorar substancialmente a eficiência energética e a diversificação de abastecimento" nos países do bloco.
Sustentabilidade
A CE estima que os preços dos biocombustíveis não reduzirão diretamente o impacto dos altos preços do petróleo, já que também deverão subir, acompanhando as tendências do mercado.
Mas sua maior participação na matriz energética "fortaleceria a segurança de abastecimento" na Europa, o que "ajudaria a mitigar os efeitos de uma futura crise do petróleo".
Ainda assim, na proposta relativa ao aumento dos preços dos alimentos, a CE defende uma avaliação "mais profunda" das conseqüências que sua política de biocombustíveis pode ter sobre os preços do mercado agrícola e a exploração de terras cultiváveis, um ponto que já está incluído no documento prévio de conclusões da cúpula, também obtido pela BBC Brasil.
O Executivo também propõe a adoção de um "mecanismo de sustentabilidade" que controle o impacto dos biocombustíveis, tanto produzidos em casa como importados, sobre as emissões de gases, a biodiversidade e a produção de alimentos.
Investimento
No documento prévio de conclusões da cúpula, os governantes europeus se comprometem a tomar medidas "precisas e a curto prazo" para ajudar os mais afetados pelos aumentos dos preços, mas não detalham como.
O texto, que pode sofrer modificações até o final da reunião, nesta sexta-feira, afirma que a UE supervisionará os investimentos especulativos no mercado de commodities e o comportamento das redes de abastecimento de alimentos, acusadas por muitos produtores europeus de inflar os preços de seus produtos.
Também pede que a ajuda oferecida por cada país membro para os setores mais prejudicados seja "seletiva", não "distorça os sinais enviados pelos preços e evite efeitos retardados gerais sobre os salários".
No âmbito internacional, os líderes da UE devem insistir na importância da abertura comercial para o setor agrícola e se comprometer a incrementar os investimentos do bloco no desenvolvimento rural de países mais pobres.
"Nossa intenção é que o volume de ajuda européia chegue a 66 bilhões de euros anuais até 2020, com metade desse aumento destinado à África, a região mais afetada (pela atual crise)", afirma o primeiro-ministro esloveno, Janez Jansa, que realizará sua última cúpula à frente da presidência rotativa da UE.
Desvantagem do etanol
A experiência do Brasil com o etanol pode servir como um exemplo para o mundo das desvantagens apresentadas pela suposta "revolução energética" criada pelos biocombustíveis, segundo uma análise publicada pelo jornal britânico The Independent nesta terça-feira.
O jornal diz que apesar de os biocombustíveis serem quase irresistíveis aos políticos que querem ser vistos como preocupados com os efeitos da mudança climática, a produção do etanol no Brasil tem, no fim das contas, um efeito negativo no combate ao problema porque tem gerado desmatamento e poluição.
"A indústria do etanol no Brasil está ligada à poluição do ar e da água em uma escala épica, ao desmatamento da floresta amazônica e da mata atlântica e à destruição da savana na América Latina", diz o vice-editor de assuntos internacionais do jornal, Daniel Howden.
Segundo o Independent, as conseqüências da "modesta redução" provocada pelo etanol na emissão de dióxido de carbono nas ruas das cidades brasileiras podem ser vistas nas "gigantescas cicatrizes das plantações de soja na Amazônia" e nas "nuvens negras dos campos de cana-de açúcar em chamas".
O jornal diz que o efeito final do etanol no combate às emissões que provocam as mudanças climáticas é negativo.
"Apesar dos níveis modestos de industrialização na maior nação da América Latina, o Brasil passou a ser o quarto país do mundo em emissão de gases de efeito estufa", afirma o Independent.
Segundo o jornal, isso está sendo causado por um desmatamento desenfreado, um fenômeno que, por sua vez, segue os passos do aumento no preço dos produtos agrícolas.
"Enquanto os preços dos produtos usados na produção de biocombustíveis aumentavam nos últimos 18 meses, as taxas de desmatamento quebraram todos os recordes", afirma o jornal.
O Independent diz que, ao mesmo tempo em que o mundo acorda para as ameaças da mudança climática, "incentivos perversos causam um ataque aos pulmões do planeta".
Howden diz que o ambientalista brasileiro Fábio Feldman, que ajudou a passar a lei estipulando o mínimo de 23% de etanol a ser adicianado a todos os combustíveis, está agora preocupado com o legado da decisão.
"Algumas plantações de cana-de-açúcar são do tamanho de países europeus - essas monoculturas imensas têm substituído ecossistemas importantes", diz Feldman, segundo o jornal.
O jornal conclui dizendo que a razão pela qual o argumento de que o mundo pode "plantar" o combustível que precisa parece muito bom para ser verdade é porque realmente é muito bom para ser verdade.
Fontes:
http://g1.globo.com
http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios
Foto: http://www.gettyimages.com.br