Universitas
Sábado, 31 de julho de 2010

Opinião: Quando somos traídos por nossas figuras de adoração

A busca por ídolos começa quando somos bem pequenos.

Mas eles também podem ser questionados no que são e em que fazem.

Ana Cássia Maturano

Especial para o G1, em São Paulo

No transcorrer da vida elegemos uma ou outra pessoa por quem passamos a nutrir forte admiração. De admirada, ela passa a ser imitada e seguida. Isso é muito comum na fase adolescente, quando muitas vezes há o compartilhamento de um ídolo por toda uma geração.

A busca por uma dessas figuras não começa nessa época da vida. Quando somos bem pequenos, já temos alguém para ocupar lugar tão privilegiado – os pais. Pois é, tem-se essa dupla como seres para lá de especiais, acima de qualquer coisa, beirando a perfeição.

A vontade de se parecer com eles é tanta que quando se tem pouca idade, a profissão do futuro é igual a de um deles. A identificação com essas figuras permite que a personalidade vá se construindo. Deseja-se ser a imagem e semelhança deles. Só que não dá, temos que ser nós mesmos.

Vamos crescendo e percebendo que existe um mundo lá fora, que nossos pais já não são tão perfeitos assim. E vamos tendo que trilhar nossos próprios caminhos e procurar outras pessoas para nos espelhar.

Quem já não quis ser professor? Essa pessoa geralmente acaba sendo um outro ídolo na vida das pessoas. É aquele que detém o saber, conhece tudo e provavelmente também tem uma vida perfeita. Mas eles são muito parecidos com nossos pais e vamos tendo que nos diferenciar.

Por mais que amemos essas figuras, elas representam nossa infância. O corpo diz que essa fase está ficando para trás, que temos que deixar esse lugar. E não é que aqueles que eram nossos ídolos, mais que perfeitos, transformam-se em seres humanos tão falhos que jamais poderíamos nos parecer com eles?

E ficamos perdidos. Procuramos nossos pares de iguais e lamentamos essa pseudo orfandade. Perdemos horas falando dos defeitos dessas figuras outrora tão amadas, de como nos enganaram (não eram nada do que imaginávamos) e de como precisamos ser diferentes deles. Custe o que custar.

Não desistimos. Vamos procurando alguém que possa nos acolher. Que possa dar eco às nossas angústias. Estamos tão frágeis. Surge um ou outro que diz que vai mudar o mundo. Nós acreditamos, precisamos acreditar. Até porque, queremos mudar o mundo. Como se fosse tarefa fácil.

Promessa

A promessa é boa. Permite que façamos coisas que sozinhos talvez não fizéssemos. Queremos inverter a ordem das coisas. Fazer o que nossos antigos ídolos jamais fariam. Desejamos ser o oposto deles. E, por vezes, entramos em enrascada.

Nessa de procurar pautas tão opostas das figuras paternas para nos identificarmos e seguirmos, deparamo-nos com pessoas das mais variadas, numa época em que a clareza das coisas fica um pouco perdida. E aquilo que poderia parecer um defeito numa pessoa comum, em uma admirada pode parecer de um valor incomensurável.

E entre aqueles que seguimos há de tudo, inclusive pessoas que têm uma vida para lá de atrapalhada. Às vezes, mais perdidos que nós mesmos, em que a droga e a delinquência têm vez. E como o amor pode ser cego, também entramos nessa roubada.

Mais uma vez somos traídos por nossas figuras de adoração. Porque de tanto procurar alguém para sermos iguais, esquecemos de ser nós mesmos.

Não há problema algum em termos alguém para nos identificarmos. Isso faz parte da nossa natureza e continua pela vida afora. Seja uma personalidade, um profissional da mesma área que a nossa, um músico, um poeta, um atleta... Não importa. Porém, essas pessoas podem e devem ser questionadas no que são e em que fazem. Caso contrário, estaremos perdidos na vida sem sermos quem realmente somos.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)

Fonte: http://g1.globo.com

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